Fenomenologia e Existencialismo

A Fenomenologia e o Existencialismo não nasceram na Psicologia, mas na Filosofia. Com o tempo, seus conceitos passaram a ser aplicados à clínica psicológica como uma resposta à necessidade de compreender o sofrimento humano de forma mais próxima, singular e contextualizada.

Na segunda metade do século XX, especialmente na Europa (pós-guerra), muitos profissionais começaram a se questionar sobre a eficácia das teorias que aplicavam em sua prática clínica.

“Os psicoterapeutas de orientação científico-naturalista procuravam, muitas vezes, encaixar as pessoas na teoria, ao invés de voltar-se para uma descrição fenomenológica da existência singular. Essas tentativas de enquadrar os pacientes nos modelos teóricos eram pródigas em explicações do sofrimento, mas quase sempre estéreis no sentido de propiciar relações terapêuticas que promovessem transformações existenciais efetivas” (LESSA; SÁ, 2006).

É nesse contexto que a Fenomenologia e o Existencialismo ganham força, pois oferecem uma nova forma de compreender o ser humano. Uma forma que prioriza sua existência concreta. 

Enquanto muitas teorias buscavam explicar o sofrimento a partir de estruturas internas ou categorias universais, a perspectiva fenomenológico-existencial inaugurou uma compreensão da experiência humana a partir daquilo que se mostra, do fenômeno.

Nas sessões de psicoterapia isso significa escutar com atenção a singularidade de cada história, sem corresponder precipitadamente uma interpretação ou explicação causal com aquilo que ora ocorre na vida do outro. Tais correspondências podem obscurecer a compreensão do fenômeno em si, levando a uma generalização que perde de vista a singularidade da existência.

Assim, esta abordagem não cria, reproduz ou utiliza categorias prévias para classificar o outro. Ao contrário, deixa-as em stand by buscando remeter o indivíduo sempre a si mesmo de modo que encontre suas próprias respostas para as questões que a vida lhe apresenta. Este “stand by” é o que chamamos de atitude fenomenológica, ou epoché

Na prática clínica esta atitude fenomenológica guarda ao menos dois sentidos: técnico e ético. Técnico porque é, de fato, um procedimento utilizado no método fenomenológico proposto por Edmund Husserl, de “retorno às coisas mesmas”; e ético porque esta atitude respeita e sustenta o caráter de abertura do paciente.

Dizer que o ser é “aberto” é reconhecer que a existência não está determinada de antemão, e esta é uma das principais contribuições do existencialismo para abordagem que se constituiu como fenomenológico-existencial. Martin Heidegger, que fora aluno de Husserl, dedicou-se ao estudo do ser e concluiu que somos o que fazemos, somos aquilo com o que nos ocupamos, somos radicalmente nossas relações, circunstâncias e ações. Somos, por fim, uma existência indissociável do mundo.

Deste modo, compreende-se que sofremos certas determinações, afinal somos parte de uma cultura, de um tempo histórico, de toda a tradição de um mundo que já existe antes de nós, mas, ainda assim, não somos determinados, pois temos liberdade. É nesta tensão, entre faticidade e possibilidade, que o ser existe enquanto “poder-ser”, sempre abertura. 

Com esta compreensão da existência, alguns temas se tornam inevitáveis em uma psicoterapia de base fenomenológica-existencial: angústia, liberdade, autenticidade, responsabilidade… explorando estes e outros meandros da existência, o psicoterapeuta (ou analista) coopera com o indivíduo numa reflexão sobre si mesmo que visa, em última instância, não a classificação ou a conformidade, mas o fortalecimento da existência concreta e singular.

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Husserl (1859-1938): filósofo alemão considerado o fundador da fenomenologia. Propôs um método de investigação que busca compreender a experiência tal como ela se apresenta, suspendendo julgamentos e teorias prévias para “retornar às coisas mesmas”.

Epoché: termo de origem grega que na fenomenologia designa a suspensão de julgamentos, explicações e pressupostos prévios. Trata-se de uma atitude que busca acolher a experiência tal como ela se mostra, sem reduzi-la a categorias ou interpretações imediatas.

Heidegger (1889-1976): filósofo alemão que desenvolveu a fenomenologia em uma direção existencial. Compreende o ser humano como ser-no-mundo, isto é, sempre em relação com o mundo, com os outros e com suas próprias possibilidades de existir.

Faticidade: refere-se ao caráter de que a existência humana é sempre situada. Diz respeito às condições nas quais cada pessoa já se encontra, como história, contexto, corpo e relações. Condições que não foram escolhidas, mas a partir das quais a vida é vivida.

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LESSA, Jadir Machado; SÁ, Roberto Novaes de. A relação psicoterapêutica na abordagem fenomenológico-existencial. Análise Psicológica, [S. l.], v. 24, n. 3, p. 339-349, 2006.

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Rianne Zabaleta

Psicóloga, estudiosa da vida, observadora do tempo, interessada pela singularidade de cada trajetória humana.

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