O Filho de Mil Homens

O filho de mil homens: este pode ser o último filme que você vai assistir em 2025, ou quem sabe será o primeiro de 2026, não importa. O importante mesmo é ver, quer dizer, sentir. Talvez você nunca tenha tido contato com uma obra tão profunda sobre amor, sobre sonhos e sobre respeito.

O filho de mil homens é uma poesia cinematográfica produzida a partir do livro de mesmo nome escrito por Valter Hugo Mãe. O filme, dirigido por Daniel Rezende, conta a história de um homem que sonhava em ser pai. Um homem que crescera sozinho e vivia isolado, mas não buscava amigos ou par romântico, buscava um filho. Quando se sonha tão grande, a realidade aprende. O filho vem. Camilo, o menino, introduz Crisóstomo, o homem, ao modo como se vive por ali. Explicando ao homem, a criança diz: é assim que funciona. Ao que o adulto responde: e tem um assim?

Tinha. Na vila de onde o garoto vinha tinha gente muito sabida sobre como as coisas devem ser e, por isso, o avô, a mãe, as vizinhas impunham aos outros que fossem desse jeito também, “do jeito certo”. A vila estava infestada de preconceitos e por isso o menino também, afinal ele era filho da vila. Mas Crisóstomo não era assim, era de outro jeito. Cresceu longe das determinações sociais da vila, não estava contaminado.

É de se estranhar: um homem de coração tão puro? Impossível! Mas a verdade é que precisava ser assim para que pudéssemos enxergar. É por contraste que a gravidade do que temos feito com as nossas crianças aparece.

Experimentando-se no espaço aberto desta nova situação de vida, homem e menino descobrem pouco a pouco como é ser pai e filho. Não, na verdade descobrem como é ser o pai de Camilo e o filho de Crisóstomo. Constroem uma relação que não é a relação que se tem, mas a relação que eles têm. Uma relação distante da norma, mas muito próxima do coração.

O filme, que em dado ponto se ramifica, passeia por histórias de vida que esbarram umas nas outras, revelando a complexidade da trama na qual cada um está inserido. Até mesmo Crisóstomo, afinal, ele também tinha um passado. Assim, somos lembrados de que na vida, como numa rede, todos os nós têm conexão e são condição de possibilidade para o próximo. Não existe elo fraco se encaramos o mundo a partir da diferença.

Esta trama, porém, vai além da relação do homem e do menino. A trajetória infeliz de Isaura e Antonino, outros filhos da vila, excluídos e machucados, é retratada até o ponto em que conhecem Crisóstomo e descobrem que há para eles um lugar no mundo. Ali, podem ser e pertencer. Decidem ficar. Os quatro constituem assim uma família improvável onde o respeito impera e o amor floresce. Afinal, como o amor poderia florescer em um solo contaminado?

A reunião desta nova família é como um marco no tempo: até ali, acompanhamos o percurso de singularidades esmagadas por preconceitos de toda ordem, sentidos na própria pele (na figura de Isaura e Antonino) ou como herança dos que vieram antes (na figura das mães de Crisóstomo e Camilo); a partir dali, um feixe de esperança, um vislumbre do porvir que cabe a nós construir.

Crisóstomo, através da sua força amorosa, ensina sobre resistência e compromisso sem fomentar discórdia ou culpa. Sua história, a história escrita por Valter Hugo Mae, nos convoca a uma responsabilidade que é nossa, coletiva. Afinal, somos todos pais e mães daqueles que virão. Que esta mensagem possa inspirar o ano por vir e fortalecer a humanidade que existe em nós.

Por:

Foto de Rianne Zabaleta

Rianne Zabaleta

Psicóloga, estudiosa da vida, observadora do tempo, interessada pela singularidade de cada trajetória humana.

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